Rivalidades, paixão, ódio, futebol, natureza, Nápoles transborda intensidade e sentimento, é o símbolo do sul italiano. Uma cidade que respira sua própria identidade e vive a vida como eles acham que deve ser vivida: com simplicidade e muita alegria!
Parthenope, como era chamada Nápoles na mitologia greco-romana, é a maior cidade ao sul da Itália e os napolitanos são apaixonados por sua terra e são completamente patriotas à Nápoles e ao país. Coisa que chega a ser um tanto contraditória, o lugar é historicamente marginalizado pelos epicentros socioeconômicos italianos pela diferença cultural, social e econômica entre as regiões, principalmente entre norte e sul. É esse contexto que venho contar nesse artigo, conheça agora o lugar mais latino da Itália:

A Itália repartida em duas
Para explicar como Nápoles se transformou em símbolo para o sul, precisamos entender primeiro de onde surge a necessidade da existência de um símbolo: a rivalidade norte-sul na Itália remonta os anos de unificação do país, em meados do século XIX, o Reino das Duas Sicílias, ao sul do território que se tornaria a Itália, era um dos mais desenvolvidos entre toda a Europa, tendo Nápoles como sua capital, isso até a unificação desse território, ao Norte, os líderes piemonteses, romanos e lombardinos tramavam o movimento de união italiana num só país e assim se fez, com a alta influência do Norte, com suas riquezas culturais, históricas e financeiras, além da proximidade com o resto da Europa, levou à categorizações sociais das populações do norte com o povo do sul.
Atrasados, improdutivos, pescadores, sujos, vergonha para a nação, assim eram vistos os napolitanos e demais povos do sul, a pobreza incomodava o norte, enquanto o sul lutava para sobreviver. Resultado? Marginalização econômica, preconceito social e escalonamento, o sul do país já não se sentia mais italiano e Nápoles sempre esteve no meio desse pensamento, um território que historicamente era lutador, o melhor estruturado entre os demais, muito forte na pesca, gastronomia e vivências únicas, a cidade rapidamente se tornou símbolo de um movimento maior.

Paixão e Sofrimento: a Alma Napolitana
Por isso, o povo napolitano vive uma intensidade visceral com suas terras, as emoções transbordam nas ruas estreitas de Spaccanapoli: mercados barulhentos, janelas floridas que contam histórias únicas, os varais de roupa montados em meio às vielas, o cheiro incansável de peixe e do mar pelas calçadas. Nápoles já não é só uma simples cidade, a muitos anos é sentimento, é resistência dentro de sua própria pátria, aqueles que eles mesmos defendem, os viram constantemente as costas.
Todo movimento cultural nesse lugar resplandece essa intensidade, ser napolitano é carregar no peito uma mistura quase feroz de dor e orgulho, viver entre as canções de amor e os gritos de raiva. E isso se vê tudo, nas celebrações religiosas que tomam bairros inteiros e se transformam em enormes festas, na teatralidade clássica no cotidiano, na gastronomia exuberante e diferente do resto do país, no futebol, na vida. O sangue latino pulsante nas veias de seus moradores se resplandece em um modo de vida batalhador e contagiante.

Gastronomia: um Grito de Liberdade e Identidade
A culinária napolitana não é só uma delícia, ela é também movimento social, ato de resistência cultural, ela corre contra o tradicional da Lombardia, da Toscana ou de Roma, a base é mantida, mas cada prato tem identidade própria. Ela é uma expressão da cultura local, combinando ingredientes do mar e da terra com sabores fortes e mediterrâneos, as pizzas que se transformariam em clássicos como o Margherita e a Marinara, o uso amplo de peixes, frutos do mar, bovinos e suínos, da famosa mussarela de búfala, as variações de massas com bastante uso de frutos de mar é a especialidade da casa, das pizzas aos macarrões, o Spaghetti alle Vongole com mariscos, uma sopa de peixe (Zuppa di pesce) ou a Impepata di cozze, um prato de mexilhões ao alho, azeite e pimenta, ou então seus doces carismáticos e também clássicos, a Sfogliatella, um folhado com recheio de creme, a Babá, um bolo embebido em rum! Ou então a Pastiera, uma torta de trigo e ricota.
Para doces, recomendo a Scartuchio, doceria com mais de 100 anos de tradição e famosa pela receita clássica da Sfogliatella e da babà al rum, outras duas opções tradicionais são a Pintauro, onde nasceu a Sfogliatella e a receita original mantida desde sua criação, porém com um adendo, ele está temporariamente fechado à algum tempo… Outro lugar que merece sua passagem é a Casa Infante da Via Toledo, perfeita para um cafézinho da tarde com gelato e bons doces!
Agora, pensando em um bom almoço ou jantar, as opções são excelente em Nápoles, e a primeira PEDE a sua visita, é quase obrigatória, então que tal começar experimentando uma das, senão A melhor como dizem por aí, pizzas de toda a Itália? A L’Antica Pizzeria da Michele te recebe de braços abertos com seus singelos 4 sabores no menu, margherita, marinara, cosacca e marita, extremamente tradicional, suas pizzas custam 5 euros cada. Ainda na pizza, outra recomendação para quem quer algo diferente é a Antica Pizzaria di Matteo, especialista em pizzas fritas, diferentão!
Para os amantes de massas, essa é IMPERDÍVEL, vai a recomendação da Trattoria de Nennella. Caótica, divertida e 100% napolitana, ela tem a alma da cidade, espere gritos, pratos voando e muito carinho em todos os pratos, se for, experimente o Spagheti alle vongole e o genovese napoletana, um prato de carne cozida com cebolas, um ambiente com músicas e danças que a comida, mesmo muito boa, fica como coadjuvante, um verdadeiro espetáculo sonoro e contagiante!

Como um argentino uniu uma cidade contra seu próprio país?
A história de Nápoles é repleta de grandes guerreiros e muita glória no passado, já nos tempos modernos: sofrimento, pobreza e vergonha nacional. Até o desembarque de um argentino. Diego Armando Maradona. O jogador é venerado tal qual um Santo na cidade, seu rosto está estampado em cada canto da cidade, sem nenhum exagero, o Napoli virou religião para os napolitanos, as batalhas contra o norte eram travados dentro de campo, no Estádio San Paolo, hoje chamado de Estádio Diego Armando Maradona.
O time de Nápoles nunca foi um dos melhores na Itália, a Associazione Calcio Napoli, desde 1927, lutava contra rebaixamentos, sem muitas glórias, a situação social e econômica se refletia dentro do gramado, no próprio time, e é essa conexão time-cidade que gerou uma torcida tão apaixonada, até os anos 80 a equipe tinha somente 4 títulos: 2 da segunda divisão e 2 da Copa da Itália.
No ano de 1984, o Napoli choca o mundo do futebol ao anunciar a contratação do já super-estrela argentina, Diego Armando Maradona, que vinha fugido de Barcelona para recomeçar no futebol europeu com a equipe napolitana, um clube à época modesto e sem grandes ambições. El Pibe ficou de 84 à 91 na equipe italiana e nesse tempo conquistou 5 títulos para o time, 4 deles inéditos: 2 campeonatos italianos e 1 Copa da Uefa, o primeiro título continental da equipe, além de títulos de Copa da Itália e Supercopa.
Maradona trouxe de volta a glória à cidade. O futebol se transformara em movimento de resistência em Nápoles graças ao argentino: suas vitórias sobre as equipes do norte eram redenção, vingança e esperança de dias melhores. Vitórias não só contra as equipes, mas contra seus maiores rivais, a mídia pró norte já não podia tocá-los, Diego virava ali Rei de Nápoles. A idolatria permanece viva com grafites, murais, altares e camisetas por toda a região. O espírito de Diego ainda caminha pelas vielas, lembrando a cada morador que eles são gigantes, apesar de tudo que vivem.

E aí, vamos conhecer Nápoles?
Nápoles é a prova de que o sul da Itália nunca se rendeu. Mesmo com todas as dificuldades, estigmas e dores históricas, a cidade pulsa com uma força que desafia o tempo. Para os amantes de cultura, exploradores e aqueles que querem realmente buscar experiências diferenciadas, Nápoles é tudo que você precisa: um pedaço único da história italiana, uma identidade culinária particular e um amor por figuras que transcendem suas profissões. Ela não busca aprovação do norte. Não quer ser Milão, Turim ou Bolonha. Quer ser apenas Nápoles: imperfeita, apaixonada, intensa. E assim, com sua arte popular, sua culinária visceral e seu futebol mitológico, a cidade segue gritando ao mundo: o sul existe, resiste e encanta.

→ ENDEREÇOS ←
- Scartuchio – Piazza San Domenico Maggiore, 19
- Pintauro – Via Toledo, 275
- Casa Infante – Via Toledo, 258
- L’Antica Pizzeria da Michele – Via Cesare Sersale, 1
- Antica Pizzaria di Matteo – Via dei Tribunali, 94
- Trattoria de Nennella – Piazza Carità, 22